Computação Quântica

Brasil instala computadores quânticos e mira soberania tecnológica

No dia 19 de junho de 2026, o Brasil entrou oficialmente no seleto grupo de países que dominam a computação quântica. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com o governo da Paraíba, oficializ

Fernando SantosComputação Quânticacomputação quântica
Equipe mapeando fluxos de negócio em uma sala com dashboards e notebooks fluxo em desenho
28 de junho de 2026publicado
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Computação Quântica Brasil - Centro Internacional da Paraíba

O Brasil na Era Quântica: Um Salto Histórico

No dia 19 de junho de 2026, o Brasil entrou oficialmente no seleto grupo de países que dominam a computação quântica. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com o governo da Paraíba, oficializou o lançamento do Centro Internacional de Computação Quântica da Paraíba (CIQUANTA-PB) — o primeiro da América Latina a receber computadores quânticos operacionais. Com investimento total de R$ 200 milhões, sendo R$ 140 milhões do governo estadual e R$ 60 milhões do governo federal, o centro representa um marco sem precedentes para a soberania tecnológica brasileira.

A ministra Luciana Santos, durante cerimônia em João Pessoa com a presença do governador Lucas Ribeiro, definiu o empreendimento como "uma infraestrutura científica de classe mundial". Os dois primeiros computadores terão capacidades de 20 e 100 qubits — unidades de processamento que, diferente dos bits tradicionais (0 ou 1), operam com estados simultâneos, permitindo realizar cálculos complexos em frações de segundo que levariam anos em computadores clássicos.

A escolha da Paraíba não foi aleatória. Entre 2023 e 2025, o MCTI destinou R$ 513,5 milhões ao estado — valor quase três vezes superior ao período de 2019 a 2022. O centro será instalado na Estação Ciência Cabo Branco, em João Pessoa, ocupando mais de 5.100 metros quadrados com infraestrutura criogênica, salas blindadas e sistemas de estabilização ambiental de ponta.

O que É Computação Quântica e Por Que Isso Importa

A computação quântica explora os princípios da mecânica quântica — superposição e emaranhamento — para processar informações de forma exponencialmente mais rápida que a computação clássica. Enquanto um Chip convencional processa bits em sequências binárias de 0 e 1, os chips quânticos utilizam qubits capazes de representar múltiplos estados simultaneamente. Essa propriedade permite resolver problemas que são praticamente impossíveis para supercomputadores tradicionais.

Para manter essas propriedades quânticas, os equipamentos precisam operar em condições extremas. O pesquisador Amílcar Queiroz, da UFCG, explica: "O chip do computador quântico precisa estar refrigerado abaixo de 10 milikelvin (mK), o que está um pouco acima do zero absoluto — cerca de 273 graus Celsius negativos. Essa temperatura criogênica é essencial para manter a coerência quântica."

No cenário global, apenas um número restrito de países — Estados Unidos, China, Japão e alguns membros da União Europeia — possuem computadores quânticos operacionais. O Brasil agora se junta a esse grupo, com a vantagem de possibilitar que pesquisadores da América Latina inteira acessem essa tecnologia via plataforma em nuvem.

A Parceria Estratégica com a China

O CIQUANTA-PB é resultado de um acordo de cooperação firmado em novembro de 2025 com o Yangtze River Delta Industrial Innovation Center for Quantum Technology, vinculado ao 54º Instituto de Pesquisa da CETC (China Electronics Technology Group Corporation), estatal chinesa do setor de eletrônica e defesa. A parceria prevê não apenas o fornecimento dos dois equipamentos iniciais, mas também transferência de tecnologia e desenvolvimento conjunto de computadores de maior porte no futuro.

Um dos projetos ambiciosos é a instalação de uma rede de comunicação quântica entre João Pessoa e Campina Grande (PB), criando um corredor de dados seguros com criptografia quântica — tecnologia virtualmente inviolável por computadores clássicos. A cooperação inclui ainda o desenvolvimento de chips quânticos próprios, inserindo o Brasil na disputa global por componentes semicondutores estratégicos.

Em junho de 2025, mesmo antes do anúncio do CIQUANTA-PB, o centro chinês já havia assinado acordo de cooperação em Chengdu com a USP, UFCG e UFPB para pesquisa aplicada em computação quântica no campo da ciência espacial. Essa colaboração inclui algoritmos quânticos para processamento de dados do radiotelescópio BINGO, instalado na Serra da Catarina (PB), a 420 km de João Pessoa.

Capacitação: 500 Profissionais em 6 Cidades

Em paralelo à infraestrutura física, o governo lançou o Projeto Residência em Tecnologias Quânticas — Qualificação e Empreendedorismo de DeepTechs Nacionais. Com aporte de R$ 20 milhões ao longo de 36 meses, o programa oferecerá 156 bolsas de estudo para capacitar cerca de 500 profissionais, estudantes e pesquisadores nas áreas de computação quântica, microeletrônica e semicondutores.

As atividades serão distribuídas em seis cidades brasileiras: João Pessoa (PB), Campina Grande (PB), Fortaleza (CE), Salvador (BA), Goiânia (GO) e Campinas (SP). A descentralização estratégica garante que o conhecimento quântico não se concentre apenas no Nordeste, mas crie uma rede nacional de competência. Profissionais de engenharia elétrica, computação e física já estão recebendo treinamento na China entre junho e julho de 2026, e acompanharão a montagem dos equipamentos até outubro.

O secretário Cláudio Furtado, da Ciência e Tecnologia da Paraíba, destaca a relevância do programa: "Esse pessoal vai acompanhar a montagem dos equipamentos desde o início, garantindo que o Brasil absorva efetivamente essa tecnência e possamos evoluir para a fabricação própria de componentes estratégicos."

Fabricação de Chips: O Próximo Grande Salto

Enquanto a maioria dos países em estágio similar limita-se a importar equipamentos quânticos, o Brasil já planeja o próximo passo: a fabricação própria de chips quânticos no território nacional. Segundo o secretário Cláudio Furtado, "a grande novidade é o interesse em avançar também para a fabricação desses chips. Isso nos eleva a outro patamar, porque não se trata apenas da tecnologia do computador quântico, mas da capacidade de desenvolver componentes estratégicos em uma área que hoje é objeto de disputa tecnológica mundial."

A iniciativa coloca o Brasil no centro de uma das disputas tecnológicas mais intensas da atualidade. Em 2025, o mercado global de semicondutores movimentou mais de US$ 600 bilhões, e os chips quânticos representam a próxima fronteira. Com a geopolítica dos semicondutores cada vez mais tensa — especialmente entre EUA e China —, o Brasil busca posicionar-se como alternativa soberana na cadeia global de componentes estratégicos.

A capacidade de produzir chips quânticos internamente teria impactos profundos em setores como segurança cibernética, inteligência artificial, saúde (simulação molecular para novos medicamentos), logística otimizada e modelagem climática — todas áreas onde a computação quântica promete avanços disruptivos.

Cronograma e Próximos Passos

O cronograma oficial do projeto está em fase de execução acelerada:

  • Junho-Julho 2026: Treinamento de pesquisadores brasileiros na China parceira
  • Agosto 2026: Chegada dos dois computadores quânticos operacionais (20 e 100 qubits)
  • Outubro 2026: Montagem completa e início das operações
  • Início de 2027: Hub Nacional de Experimentação Quântica com acesso remoto aberto

O centro operará em regime de 24 horas por dia, 7 dias por semana, com administração compartilhada entre MCTI e governo estadual. O Hub Nacional de Experimentação Quântica permitirá que pesquisadores de universidades e empresas de todo o país acessem os equipamentos remotamente via nuvem, democratizando o acesso a uma infraestrutura que, normalmente, custa centenas de milhões de dólares em investimentos.

Geopolítica Quântica e o Papel do Brasil no BRICS

Em 23 de junho de 2026 — apenas dias após o anúncio do CIQUANTA-PB —, o Brasil participou do Fórum de Tecnologias Quânticas do BRICS, em Moscou, com a presença de representantes do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC). O evento reforça a estratégia brasileira de posicionar a computação quântica pauta prioritária no bloco.

A CETC 54, empresa estatal chinesa parceira do projeto, figura na lista de restrições do Departamento de Comércio dos EUA (BIS Entity List), que proíbe empresas americanas de fornecer tecnologia à estatal sem licenças especiais. Em março de 2026, relatório do Congresso americano classificou o telescópio BINGO — que utiliza a mesma empresa chinesa — como componente de suposta rede de inteligência no Hemisfério Sul.

A coordenação científica do BINGO, liderada pela USP e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), defende o caráter estritamente científico de ambas as iniciativas. A comunidade científica brasileira argumenta que a cooperação com a China em tecnologias quânticas é essencial para evitar a dependência tecnológica exclusivamente de blocos ocidentais.

O Ecossistema de Data Centers e Infraestrutura Digital

O CIQUANTA-PB se insere em um contexto mais amplo de expansão da infraestrutura digital brasileira. O Brasil é hoje o 12º país com maior volume de data centers do mundo, responsável por 50% de toda a infraestrutura de data centers da América Latina. Globalmente, investimentos em data centers devem somar US$ 3 trilhões nos próximos cinco anos, com o Brasil atraindo cerca de US$ 33 bilhões até 2030, segundo o Global Data Center Outlook 2026 da Forbes.

Apesar desse crescimento impressionante na infraestrutura clássica de data centers, especialistas apontam que a computação quântica não substituirá os data centers convencionais, mas funcionará como um acelerador para problemas específicos. O CIQUANTA-PB foi projetado exatamente com essa arquitetura híbrida: o centro quântico complementará a infraestrutura de processamento convencional, servindo para pesquisas e cálculos de altíssima complexidade que demandariam tempo impossível em CPUs tradicionais.

Aplicações Práticas: Da Saúde à Astrofísica

As aplicações potenciais da computação quântica no Brasil já estão sendo mapeadas por pesquisadores envolvidos no projeto:

  • Saúde: Simulação molecular para descoberta de novos medicamentos, acelerando o desenvolvimento de tratamentos personalizados e reduzindo custos de P&D em até 60% na indústria farmacêutica
  • Inteligência Artificial: Treinamento de modelos de machine Learning em velocidade exponencialmente superior, impactando setores como agronegócio e previsão climática
  • Segurança Digital: Criptografia quântica para comunicações invioláveis, essencial para sistemas financeiros, defesa e infraestrutura crítica
  • Astrofísica: Processamento de dados do radiotelescópio BINGO para mapeamento da Via Láctea e estudo da energia escura
  • Novos Materiais: Simulação de propriedades de materiais supercondutores e nanoestruturas para aplicações industriais

A rede de comunicação quântica planejada entre João Pessoa e Campina Grande, futuramente, servirá como infraestrutura de teste para protocolos de criptografia quântica que poderão ser expandidos para todo o país.

Impacto no Mercado de Trabalho e Pesquisa

A computação quântica cria uma demanda crescente por profissionais altamente qualificados. O programa de residência com 156 bolsas e capacidade para treinar 500 profissionais é apenas o primeiro passo. Estimativas da indústria indicam que, até 2030, o mercado global de computação quântica demandará mais de 2 milhões de profissionais especializados — e o Brasil, com o CIQUANTA-PB, posiciona-se para formar uma parcela significativa dessa mão de obra.

O programa descentralizado em seis cidades cria polos regionais de excelência em tecnologias quânticas, evitando a concentração de conhecimento apenas em centros tradicionais como São Paulo e Rio de Janeiro. Campina Grande (PB), com sua histórica tradição em engenharia elétrica pela UFCG, e Fortaleza (CE), com o ecossistema tecnológico em expansão, ganham reforço estratégico na formação de talentos.

FAQ — Perguntas Frequentes

O que é um qubit e por que ele é diferente de um bit?

Um bit clássico representa apenas 0 ou 1. Um qubit (bit quântico) pode representar 0, 1 ou ambos simultaneamente graças ao fenômeno da superposição. Isso permite que computadores quânticos processem um número enorme de possibilidades em paralelo, resolvendo certos problemas exponencialmente mais rápido que computadores clássicos. No caso do CIQUANTA-PB, os equipamentos terão 20 e 100 qubits de capacidade.

Quanto tempo levará para o centro começar a funcionar?

Os equipamentos chegam em agosto de 2026, com montagem prevista para ser concluída até outubro. As operações plenas com acesso remoto para pesquisadores devem começar no início de 2027, após calibração e testes extensivos dos sistemas criogênicos.

A parceria com a China é segura geopoliticamente?

A CETC 54, parceira chinesa, está na lista de restrições dos EUA, o que gerou questionamentos. A posição oficial do governo brasileiro é de que a cooperação tem caráter estritamente científico. A estratégia busca diversificar parcerias tecnológicas, evitando dependência de um único bloco geopolítico — posição similar à adotada pelo Brasil em outras áreas estratégicas da ciência.

A computação quântica vai substituir os supercomputadores atuais?

Não. A computação quântica é eficaz para tipos específicos de problemas — como fatoração de números primos, simulações moleculares e otimização combinatória. Para a maioria das tarefas computacionais diárias, os computadores clássicos continuarão sendo a solução mais eficiente. O CIQUANTA-PB foi projetado como uma infraestrutura complementar para pesquisas de ponta, não como substituto da computação convencional.

Outros pesquisadores poderão usar os computadores quânticos?

Sim. O Hub Nacional de Experimentação Quântica permitirá acesso remote aos equipamentos via plataforma em nuvem. Pesquisadores de universidades, institutos de pesquisa e empresas brasileiras poderão solicitar tempo de uso dos computadores, seguindo critérios de prioridade e disponibilidade, similar ao modelo adotado por centros quânticos nos EUA e na Europa.

Fontes e referências